‘Ideologia de Gênero’ é Fake News

Por Brena Santos

A partir da elaboração do último Plano Nacional da Educação (PNE), travou-se debates intensos acerca da “ideologia de gênero”.

Antes de tudo, é imperioso esclarecer que a extensa difusão desse termo, supra escrito em aspas, está fundamentada na tentativa de desqualificar qualquer manifestação de sexo, gênero, sexualidade, identidade e amor, que fuja dos padrões culturalmente impostos de um binarismo ortodoxo.

Digo isso pelo fato do próprio significado das palavras. A utilização propositada do vocábulo “ideologia” está intimamente ligada à necessidade de fazer referência a uma imposição, uma doutrinação e, neste caso: uma doutrinação de gênero. Que, de antemão, esclarecemos não existir.

Logo, o uso desse discurso pelas bancadas religiosas teve como objetivo desqualificar a discussão lúcida e necessária de gênero nas escolas. Este posicionamento vil foi comprado como verdadeiro por parte significativa da sociedade brasileira.

Durante a avaliação do PNE, entre os trechos vetados por deputados, utilizando-se do argumento de barrar a “doutrinação”, estavam: metas de combate à “discriminação racial, de orientação sexual ou à identidade de gênero”, censos sobre situação educacional de travestis e transgêneros e incentivo a programas de formação sobre gênero, diversidade e orientação sexual.

O fundamento construído pela bancada foi que tais “expressões” valorizavam uma “ideologia de gênero”, e esta deturparia os conceitos de homem e mulher, bem como destruiria o modelo tradicional de família.

Essa discussão também foi pauta de sessão na Câmara Municipal de Mossoró (2012-2016), que compreendeu ser desnecessário discutir gênero nas escolas; o posicionamento firme demonstrou a nítida demonstração de desinteresse e desconhecimento a respeito do assunto.

Pois bem, o que se tem hoje é a completa falta de incentivo e, em alguns casos, até a proibição de se debater questões de gênero, sexo e sexualidade nas escolas, o que institucionaliza diversas manifestações de preconceito.

O ambiente educador torna-se um ambiente de medo, e o desejo de ser quem realmente é encontra barreiras na ignorância familiar, escolar e, por fim, no mundo de gente grande quando estabelece contato com a sociedade de leões.

Nesse debate os “achismos”, “juízos de valor” e “senso comum” não cabem. São essas noções que fazem os ignorantes e odiosos mantarem antes de qualquer chance de discussão.

Uma sociedade que debate abertamente questões de gênero e sexualidade, levanta um questionamento simples e prático: porque o “diferente” me incomoda tanto?

Além de barrar preconceitos, o ambiente educacional precisa empoderar; criando um coletivo que pensa fora do binário (existência única da mulher feminina e do homem macho) e luta por uma emancipação individual e social.

Hipoteticamente, talvez seja exatamente isso que realmente incomoda e amedronta: a quebra das correntes tradicionais através do empoderamento.

Não há outra explicação para a disseminação de uma das maiores fake news existente, a denominada “ideologia de gênero”, quando, na verdade, desde o início, a única coisa que se buscou foi a educação acerca dessa temática e diversas outras.

*Brena Santos é advogada e redatora, na cidade de Mossoró/RN, com atuação especializada em Licitações e Contratos administrativos; e colunista em direito de família, gênero e sexualidade.

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