Apropriação cultural e abuso: veja o guia da folia consciente

Carnaval: o que pode e o que não pode na folia?

Carnaval é sinônimo de festa, dança e curtição, mas muita gente ainda passa do limite usando fantasias que esbarram em apropriação cultural, comentários tidos como elogios, mas que representam um racismo e homofobia velados ou até mesmo atitudes machistas na hora da paquera que beiram o assédio. Afinal o que vale e o que não vale na hora da folia?

Segundo uma pesquisa do Instituto Data Popular realizada em 2016, 61% dos homens afirmaram que uma mulher solteira que vai pular carnaval não pode reclamar de ser cantada e 70% acredita que as mulheres se sentem felizes quando ouvem um assobio. “Tudo depois do não é assédio, mas nem sempre esse ‘não’ é verbal. Ele pode ser dito de vários jeitos, com uma desviada de olhar, por exemplo”, defende Carolina Oms, co-fundadora e diretora executiva da revista feminista AZMina, que promove a campanha #Carnavalsemassédio e criou um guia didático sobre o assunto.

Pensando em aumentar a consciência coletiva e diminuir os casos de violência e preconceito durante as festas de rua, vem surgindo muitos movimentos dentro e fora da internet que chamam para o debate público, é caso do #EuDecido, parceria entre o Free Free e o Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo que distribuirá 3.000 adesivos nos blocos do carnaval de rua de São Paulo deste ano com frases que destacam o poder da mulher sobre o seu corpo e sua própria identidade. Embalados por esse momento de reflexão, também decidimos perguntar para artistas, músicos e ativistas o que cabe e o que não cabe no Carnaval, confira abaixo:

 

– QUAL É O LIMITE ENTRE PAQUERA E ASSÉDIO?

Carolina Oms, co-fundadora e diretora executiva da revista feminista AZMina
“Cabe todo mundo na folia, cada um do seu jeito e com seu contexto próprio. É só importante ter a sensibilidade com o outro. A paquera não tem uma regra para acontecer, por isso que ela é tão gostosa. A partir do momento em que você respeita o outro, tudo é permitido. Agora, tudo aquilo que passa do não já é assédio. E é importante lembrar que esse “não” nem sempre é verbal, ele pode ser dito de outros jeitos. Não é legal tocar o outro sem permissão, muito menos se aproveitar de uma mulher que está bêbada. É uma lista bastante óbvia, mas infelizmente hoje temos que dizer o obvio porque o machismo mora nesses pequenos detalhes. O machismo aflora nas situações mais absurdas.”

Aglaia, vocalista da banda NETVNO
“Não é “só um elogio” se você faz com que eu queira me cobrir. Nesse carnaval, que tal respeitar as colegas no bloquinho?”

 

– HOMENS TRAVESTIDOS DE MULHERES PODE?

Karina Buhr, cantora, percussionista, poeta e atriz
“Comecei a tocar no carnaval de Pernambuco em 1994, no maracatu Piaba de Ouro e depois no Estrela Brilhante do Recife. Já vi de tudo um pouco, mas o que me incomoda realmente são os homens fantasiados de mulher, de uma maneira geral com trejeitos degradantes e, não raro, encenando estupros. Sofremos violências diárias, por conta da cultura do estupro e atitudes como essas são uma manutenção permanente desse machismo violento. Isso é assustador e tem que parar”

 

-MINHA FANTASIA É OFENSIVA?

Souto Mc (Foto: Reprodução/Instagram)

Souto MC, rapper indígena

“Essa ideia de que o indígena é folclórico é muito equivocada, passa o conceito que o índio não existe mais e que, por isso, pode ele pode ser reproduzido como fantasia. Índio não é fantasia. As pessoas usam corares e pinturas indígenas sem saber o real significado delas. Acredito que se alguma dessas pessoas fossem numa aldeia e tentassem aprender sobre nossos costumes, elas não reproduziriam esses elementos numa festa como o carnaval”.

Nina Campos (Foto: Douglas Mendes )

Nina Campos, baixista do BAYO

“A fantasia não pode servir para esconder o preconceito, a homofobia, a misoginia. A dor do outro não é engraçada. No carnaval a gente pode ser feliz, sem deixar o outro triste.”

Uriass (Foto: Reprodução/Instagram)

Urias, cantora drag gay

“É válido lembrar que etnia e a cultura alheia não é fantasia hora nenhuma. É só parar para pensar, se ofende alguém, não é uma fantasia.”

Titica, cantora angolana trans

“As pessoas devem se fantasiar com coisas que se identificam, não para fazer deboche ou ignorar o negro e suas raízes. Isso é ridículo e desrespeitoso.”

 

– EXPRESSÕES GORDOFÓBICAS QUE DECEM SAIR DO SEU VOCABULÁRIO JÁ!

Flá Carvalho (Foto: Renata Monteiro)

Flávia Carvalho, ativista body positive e modelo gorda

“Nesse carnaval, podem esperar gorda de biquini, top, body, brilhos e pele à mostra. Vai ter sim, vai ter muito. Mas não nos chamem de gordelícia, gordinha, e cheinha. Também não utilizem como elogio coisas do tipo: ‘você é linda de rosto’.”

– CHEGA DE PRECONCEITO E INTOLERÂNCIA

Max B.O. (Foto: Reprodução/Instagram)

MAX B.O, rapper

“Não precisamos de intolerância, desrespeito, confusão… Atitudes desse tipo são completamente dispensáveis. Vale lembrar que ninguém tem nada a ver com as escolhas e com os gostos de quem está ao redor. Se cada um cuidar da sua própria vida, vai ser tudo odara.”

Imagem: fotoquerima

Fonte: O Globo – Vogue

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